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Reciclagem do lixo

Akihisa Motoki; Kenji Freire Motoki
Departamento dos Cientistas da BSGI

Apresentação em poster, IV Encontro do Movimento de Educação Ambiental da BSGI, 8 de julho de 2003, Centro Cultural da BSGI, São Paulo.


Hoje em dia, no início do Século XXI, a importância da reciclagem do lixo é enfatizada por várias pessoas e instituições sob o ponto de vista da economia de recursos naturais e a proteção do meio ambiente. O termo “reciclagem” encontrado nos dicionários significa: 1) reaproveitamento de materiais usados; 2) recuperação dos dejetos; 3) adaptação a uma nova utilização; 4) atualização para melhores desempenhos; 5) atualização de conhecimentos.

Este último item é, sem dúvida, o mais importante, isto é, para começar a reciclagem, temos de atualizar nossos conhecimentos. Para fazer a reciclagem temos que atualizar nossos conhecimentos.

Para a manutenção das atividades da civilização humana, é necessária obtenção de muitas matérias primas a partir da natureza. Os minérios são retirados a partir de minas e o petróleo, carvão mineral, gás natural e minério de urânio são extraídos como materiais de recursos energéticos. Os alimentos são fornecidos pela agricultura, pecuária e pesca e, as florestas fornecem madeiras que são utilizadas para fabricação de móveis e como matéria prima para o fabrico de papel. A água e o ar também são recursos indispensáveis para nossa vida. A aquisição destes materiais a partir da natureza precisa do trabalho, que exige custo social. Na maioria dos casos, recursos naturais não são renováveis e de quantidade limitada e, portanto diminuem-se por meio da retirada.

Os materiais retirados são transportados para a tecnosfera, isto é, território controlado pela civilização, e transformados em produtos fabricados por meio de indústrias. Os produtos são distribuídos por meio do comércio como mercadorias e, no final, são consumidos pelo público geral. Após o consumo, os materiais desnecessários são despejados, ou seja, expulsos para fora da tecnosfera como dejetos. Os dejetos sólidos são chamados de lixos e os líquidos, de esgotos. Além desses, há uma grande quantidade de dejetos gasosos.

De certa forma, é conhecido o fato de que uma grande quantidade de materiais está entrando para a tecnosfera. Porém, é pouco conhecido o fato de que uma imensa quantidade de dejetos está sendo despejada fora da tecnosfera. A princípio, a quantidade dos materiais adquiridos e os despejados são iguais. Se a aquisição fosse maior do que o despejo, a cidade iria crescer infinitamente e, no caso contrário, a tecnosfera iria à extinção.
    Antigamente, os dejetos acima citados foram despojados na natureza sem tratamento. Tal fluxo de material é de baixo custo imediato e, portanto a sociedade econômica realiza alta produtividade por tempo e trabalho. Estes fatores são favoráveis para a filosofia capitalista, que exige produção, consumo e dejeção em grande quantidade por tempo. Por outro lado, ocorre enorme consumo de recursos naturais e imensa emissão de dejetos. Os recursos naturais se esgotam rapidamente e a destruição da natureza e a poluição ambiental avançam assustadoramente. Em conseqüência, a civilização humana entrará em risco de extinção devido ao esgotamento dos recursos e abundância dos dejetos. O tempo de chegada da crise fatal é estimado, sendo em torno do ano 2060, isto é um futuro próximo. Se nós não alterarmos a tendência predatória da civilização do passado, não haverá continuação da civilização humana nem para o próximo século.

A propósito, existem muitas coisas que cada um de nós pode contribuir e colaborar para com o ser humano e sua civilização, para não passarmos fome de recursos naturais e que também não sejamos enterrados pelo lixo. A coleta seletiva do lixo é um exemplo. Isto é, fazer coleta de lixo separando em tipos, tais como, plástico, metal, vidro, papel, outros materiais incineráveis e não incineráveis. Com a coleta seletiva, a reciclagem e tratamento do lixo são viabilizados. Entretanto, para colocar esta idéia em prática, é necessário alto nível de educação popular, ou seja, conscientização, vencendo a preguiça e o egoísmo que estão presentes na mente de cada um, o que exige um grande esforço social. Porém, se não o fizer, a civilização do Século XXI não será praticável, ao contrário, o nosso futuro vai se arruinar em um curto período de tempo.

Os lixos recolhidos por meio da coleta seletiva são enviados para as indústrias de reciclagem. A reciclagem de papeis vem sendo realizada na Ásia há mais de mil anos. Atualmente, as indústrias que fazem a reciclagem do papel produzem papel reciclado para revistas, jornais e papel higiênico, entre outros. Obviamente, a taxa de reciclagem não é cem por cento e portanto uma parte deve ser descartada. O lixo metálico, como as latas, sucatas de ferro velho, entre outros, são classificados em ferro e metais não ferrosos por meio da técnica de separação magnética. Os metais não ferrosos são subdivididos em metal pesado e metal leve por meio da separação densimétrica. Através destes processos, o lixo metálico é transformado em matéria-prima para as indústrias de ferro, cobre e alumínio, entre outras. Outro tipo de lixo muito comum é as garrafas e embalagens de vidro, que também podem ser reciclados em novos artefatos de vidro, aliás, das embalagens é a única quase 100% reciclável, ou seja, 1,0 kg de vidro usado, após reciclagem, produz perto de 1,0 kg de vidro novo.

A coleta seletiva de lixo tem um grande efeito para aliviar trabalhos de incineração. Como por exemplo, pequeno município de Kamikatsu, Província de Tokushima, Japão, está realizando coleta seletiva de lixo em 34 tipos diferentes. Desta forma, muitos materiais recicláveis estão distribuídos para respectivas indústrias. Em resultante, a quantidade do lixo a ser incinerado diminuiu para um terço do original.

Os materiais reciclados são, em geral, de alto custo e baixa qualidade, quando comparados com os materiais de fabricação convencional a partir da matéria-prima virgem. Como por exemplo, os papeis reciclados são mais caros do que os papeis comuns produzidos de madeiras, sendo desvantajoso para os fabricantes. Neste sentido, a tecnologia atual de reciclagem ainda está no estágio primitivo e imaturo. Por isso, os governos de países industrialmente desenvolvidos obrigam por legislação que as empresas fabriquem e usem papeis reciclados em determinada porcentagem. Tanto pela necessidade do tratamento do lixo quanto para a economia de recursos naturais, as indústrias de reciclagem são uma necessidade social indispensável mesmo não havendo viabilidade econômica e, portanto, tal obrigação pela lei é às vezes é importante. Nos últimos anos, a tecnologia da reciclagem ganhou notável desenvolvimento, aprimorando a taxa de reciclabilidade, qualidade dos materiais reciclados e a viabilidade econômica dos processos industriais relacionados.

O lixo não reciclável e incinerável é transportado para incineradores, onde é queimado. Os incineradores modernos podem gerar energia elétrica utilizando o calor da incineração do lixo. Isto é, mesmo não podendo ser reciclados para a obtenção de outra matéria-prima, certos tipos de lixo são adequados para fontes de combustível para geração de energia térmica e elétrica. A partir das cinzas deste processo, são obtidos materiais sólidos denominados “compostagem”. Estas cinzas também podem ser utilizadas nas indústrias da construção civil, química, de fertilizantes, entre outras, o que depende de sua composição e propriedades químicas. No Japão, as instalações deste tipo são chamadas de “fábricas” e, não “incineradores”, porque estas produzem materiais necessários para sociedade.

A Fábrica II do Centro da Limpeza no Município de Sakai, Província de Osaka, é a primeira usina elétrica de alta eficiência que aproveita a energia térmica gerada pela incineração do lixo. Nesta instalação, o lixo é tratado como uma parte do combustível e utilizado em conjunto com o gás natural, de forma que o vapor gerado pela combustão dos mesmos é a fonte propulsora da turbina geradora de energia elétrica. A capacidade diária de tratamento do lixo é 460 toneladas e a energia elétrica gerada pela combustão do mesmo é de 16 Mega Watts. A Fábrica I da Associação de Limpeza no Município de Koshigaya, Província de Saitama, é de capacidade maior, realizando a incineração diária de 800 toneladas de lixo e gerando 24 Mega Watts de energia elétrica. Depois da retirada dos elementos metálicos, que são prejudiciais, as cinzas são fundidas e transformadas em compostagem de propriedades físicas e químicas estáveis, que é utilizada para pavimentação de ruas. A composição química desta compostagem é similar à de rocha natural. Este produto auxilia na economia pela redução no consumo de asfalto, que é um tipo de petróleo. A Fábrica Kanazawa na Província de Kanagawa tem capacidade de 1200 toneladas diárias de incineração e 25 Mega Watts da geração de energia. Esta fábrica também produz compostagem que é utilizada para materiais de pavimentação, tijolo, telha, etc.

A maioria da energia gerada pela combustão do lixo é utilizada pela própria instalação. Como por exemplo, a Fábrica Kanazasa e a estação de tratamento de esgoto que está instalada no seu lado consomem 19 Mega Watts dos 25 Mega Watts da energia gerada. Sendo assim, apenas 6 Mega Watts são vendidos para a empresa de eletricidade. Desta forma, a energia líquida fornecida pelos incineradores é pequena em relação às de usinas termoelétricas modernas de óleo pesado e de gás natural, entretanto é comparável com as usinas antigas de carvão mineral. Portanto, os incineradores não substituem usinas termoelétricas, porém, podem auxiliar no abastecimento da energia elétrica, aliviando a sobrecarga das outras usinas. Além disso, diminuem consumo de combustível, economizando petróleo e gás natural. Entretanto, o custo para a construção e a operação destas fábricas é alto e, portanto, não se pode compensar com a venda da energia elétrica e da compostagem. Mesmo assim, sob o ponto de vista de aprimoramento no tratamento do lixo e da economia de recursos naturais, a necessidade social é grande. Portanto, as fábricas estão funcionando com o subsídio do governo.

Residências e restaurantes de grandes cidades estão despejando diariamente uma enorme quantidade de lixo orgânico. Fazendas pecuárias e granjas do interior também estão emitindo uma espantosa quantidade de urinas e estrumes. O tratamento deste tipo de lixo orgânico demanda um investimento que é de alto custo, tornando-se um grande problema social. Entretanto, a tecnologia de reciclagem pode diminuir este custo, trazendo benefícios sociais.

Os materiais orgânicos deste tipo são facilmente fermentados e, durante a fermentação gera-se o gás combustível constituído principalmente por metano, denominado biogás. As estações de tratamento de esgotos também geram uma grande quantidade de biogás. A potência energética do biogás é mais baixa do que a do gás natural, sendo de cerca de 75 por cento. Mesmo assim, há grande utilidade industrial. Um cálculo experimental do Japão sugere que a energia total do biogás gerado pelo lixo orgânico doméstico corresponde a cerca de 8 por cento do consumo doméstico de combustível e, a energia produzida pelos dejetos rurais, cerca de 5 por cento. Certas fazendas do Japão estão aproveitando o biogás rural como combustível para o próprio consumo. O Brasil é um dos maiores países pecuaristas do mundo e, portanto a soma da energia do biogás de origem rural é incomparavelmente maior do que a do Japão. Após o tratamento adequado, o resíduo sólido pode ser utilizado como fertilizante orgânica para plantas.

O biogás pode ser aproveitado por determinadas indústrias e usinas termoelétricas como combustível auxiliar. Portanto, não substitui petróleo e gás natural, mas pode reduzir o consumo. Além disso, a combustão do gás metano pode reduzir parcialmente as causas artificiais do efeito estufa. A produção de fertilizante orgânico pode diminuir o consumo de minérios contendo fósforo. Entretanto, sendo igual a outras tecnologias de reciclagem, o custo para este processo é relativamente alto e não há ainda boa viabilidade econômica. Mesmo assim, a produção e o aproveitamento do biogás são necessários sob ponto de vista tanto de aprimoramento de tratamento do lixo quanto da economia de recursos naturais. Desta forma, considera-se que a pesquisa, a produção e a utilização da energia do biogás devem ser incentivadas pelo governo.

No Município de Izumo, Província de Shimane, Japão, há um sistema peculiar de reciclagem de lixo. Dois caminhões coletores de lixo, chamados respectivamente de “Towncall” e “Compost” recolhem o lixo urbano e produzem combustível sólido e fertilizante sólido durante a operação nas ruas. Isto é, estes são pequenas fábricas automóveis de reciclagem. Tal tecnologia é útil para cidades pequenas e médias do interior.

O componente principal dos dejetos gasosos é, sem dúvida, o gás carbônico, chamado de CO2. A produção artificial do CO2 principalmente por uso de combustíveis fósseis é o suspeito número um do efeito estufa no tempo moderno. Por outro lado, o CO2 é absorvido durante o crescimento das plantas jovens. Desta forma, o reflorestamento das áreas desmatadas é um trabalho muito importante sob o ponto de vista do tratamento deste tipo de dejeto gasoso e com isto, reduzir seu efeito na atmosfera. Através da fotossíntese, as plantas transformam CO2 atmosférico em biomassa formando seus corpos, que assim podem ser aproveitados como matéria-prima para papeis e móveis, entre outras aplicações. Neste sentido, pode-se dizer que reflorestamento é a suprema tecnologia de reciclagem, que realiza o tratamento de dejeto gasoso - CO2, redução do efeito estufa e a produção de madeira. Este trabalho deve ser incentivado e apoiado tanto tecnológico quanto financeiramente, por organizações governamentais e não governamentais, tanto do Brasil quanto do mundo.

Apesar da civilização atual estar aparentemente desenvolvida, há ainda muitos fatores imaturos. Um deste diz respeito aos materiais não recicláveis que devem ser enterrados nos aterros sanitários. Dentro destes, existem materiais altamente prejudiciais, tais como certos metais pesados. Estes devem ser isolados definitivamente a partir do meio ambiente no local específico chamado de aterro sanitário final. A tecnologia de isolamento final é muito difícil e, até recentemente não houve um método eficiente. Entretanto, no final do século XX, foi estabelecida esta técnica de isolamento definitivo dos metais pesados de forma estável durante período mínimo de vinte mil anos, utilizando-se argila minerais e zeólitas.

Conforme a explicação acima, o fluxo de material dentro e fora da tecnosfera com base na reciclagem altamente desenvolvida é de alto custo imediato e de baixa produtividade por tempo e trabalho. Desta forma, não é vantajoso para a economia capitalista do século passado. Por outro lado, a emissão de dejetos é baixa e o consumo dos recursos naturais também é baixo. Em conseqüência, a poluição ambiental e a devastação da natureza são baixas. Este novo estilo abre o caminho para o estabelecimento de uma civilização de futuro, que objetive a convivência do homem com a natureza. O desenvolvimento sustentável é um fator indispensável para evitar a extinção brusca da nossa civilização prevista para um futuro próximo, e possibilitar sua continuidade além de um futuro distante. Neste sentido, a coleta seletiva de lixo é o primeiro passo da alteração do rumo da civilização humana, deixando o estilo predatório no passado, tomando o rumo para a convivência com o meio ambiente. É importante anotar o fato de que o ser humano não é dono do mundo, mas sim, um ser único na face da Terra.


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